Qual a Importância do 4º Mundo?
No Manifesto Quartomundista eu defini exatamente o que é (e o que não é) o Quarto Mundo e quais são seus objetivos. Passados cerca de 10 meses após a criação oficial do coletivo, este novo texto se propõe então a mostrar o que de fato o Quarto Mundo cumpriu e está cumprindo de suas metas, e também o que fará daqui pra frente.
Pois bem, como sou Historiador, meu domínio é estritamente o passado, e não tenho muita habilidade de tratar do presente e do futuro como será necessário neste texto. Por isso evoco agora o auxilio da Musas, Deusas Olimpíades, senhoras do Tempo, virgens de Zeus porta-égide, sabedoras de mentiras que parecem verdades, e de verdades que só elas podem enunciar. Pelas Musas, cantarei.
Mas afinal de contas, qual a importância do Quarto Mundo para o atual cenário de publicação de quadrinhos brasileiros? Se eu fosse humilde, responderia que não tem nenhuma importância. Com ou sem o Quarto Mundo a atual produção de quadrinhos no Brasil estaria do mesmo jeito. Mas eu não sou humilde. E com minha natural arrogância aliada ao espírito das musas que agora me possuem, respondo que não teríamos alcançado o atual cenário se não fosse a atuação do Quarto Mundo, direta, ou indiretamente.
Que as Musas enunciem os fatos. No mês de março deste ano tivemos 10 lançamentos de quadrinhos nacionais (excluindo-se, é claro, Turma da Mônica) segundo checklist do Universo HQ (sendo que destes, vale ressaltar, 5 foram independentes e todos pertencentes ao Quarto Mundo). É bem pouco para considerarmos que já temos um mercado de quadrinhos nacional forte e diversificado, certo? No entanto, essa foi a mesma quantidade de lançamento que tivemos no primeiro trimestre inteirinho de 2007. Ou seja, podemos perceber um nítido crescimento do número de publicações. Mas ainda estamos muito longe do ideal (tanto em quantidade, quanto em qualidade, lembrando que uma coisa puxa a outra), principalmente se compararmos nossa produção a mercados de quadrinhos já consolidados. Enquanto lançamos 10 títulos, o mercado norte-americano lançou no mesmo mês de março exatamente 632 títulos (segundo lista da Diamond, então se supõe que o número seja maior ainda, podendo chegar a cerca de mil lançamento, dado que há diversos produtores pequenos ou independentes que não distribuem por essa empresa).
A grande questão é a seguinte; como a produção gringa é quantitativamente bem maior que a nossa, a produção de quadrinhos acima da média deles e que estão nos 10% (segundo a Lei de Sturgeon, explicada no segundo pilar do manifesto quartomundista) é logicamente também bem maior. Então se eles produzem cerca de mil títulos por mês, possivelmente 100 revistas que eles lançaram estariam acima da média, enquanto que nós, produzindo apenas 10 títulos por mês, possivelmente apenas uma delas estaria no mesmo nível dos 10% norte-americano. Como podem ver, é de fato uma comparação desleal.
É por isso que a principal bandeira do 4mundo é incentivar cada vez mais quadrinistas a produzirem de forma independente, seja em fanzines, revistas, álbuns ou em webcomics. Pois só com o aumento quantitativo da produção é que se tem um aumento qualitativo (e isso vale tanto no nível individual, quanto coletivo). Então se quisermos que a nossa produção nacional seja tão boa quanto a gringa, temos que no mínimo produzir tanto quanto eles.
E como tem acontecido essa fomentação da produção de quadrinhos pelo Quarto Mundo? Primeiramente, dando saída a produção que já existe, fazendo essas revistas chegarem a seus respectivos leitores. E isso é feito principalmente com a participação do Quarto Mundo em eventos, shows e feiras. Um bom exemplo disso foi a participação do Quarto Mundo na última Feira de Artes da Vila Pompéia, em que conseguimos de fato furar “a bolha”, atingindo um público completamente novo, que não é leitor habitual de quadrinhos, mas que é consumidor de arte e cultura, e estão livre de qualquer preconceito com os quadrinhos nacionais como costuma haver entre os fanboys. Se cada uma daquelas pessoas que comprou nossos quadrinhos na feira, gostar do que ler, poderá se tornar um leitor de quadrinhos, e principalmente, dos nossos quadrinhos. E é esse outro dos grandes focos do 4mundo. Formar um novo público leitor para nossos quadrinhos e criar o nosso próprio mercado consumidor. E pouco a pouco, em ação como essas, estamos conseguindo fazer isso.
A segunda forma de fomentar a produção está sendo feita de modo online, tanto aqui no blog do Quarto Mundo, quanto no Quinto Mundo, o nosso fórum aberto de discussão. No blog é publicado todos os dias novas páginas de histórias em quadrinhos, não só dos próprios integrantes do Quarto Mundo, mas também de qualquer um que quiser colaborar com suas HQ’s. Já no fórum é discutido tudo que envolve a produção de quadrinhos, do roteiro a edição final. E lá estão quadrinistas dos mais variados estilos, nos mais diversos níveis de experiências, trocando idéias entre si, colaborando desta forma para o crescimento e a evolução técnica e artística de todos eles. Em um país onde não existe uma formação superior específica para quadrinistas, até mesmo porque ainda não existe uma mercado de atuação para os futuros profissionais formados, um fórum como o Quinto Mundo onde os quadrinistas podem aprender e se desenvolver é extremamente importante.
Mas ainda que essas ações do Quarto Mundo para fomentar a produção de quadrinhos brasileira estejam dando certo, elas tem um limite. Apenas com essas ações do Quarto Mundo não seremos capaz de alcançar o tão sonhado mercado de quadrinhos brasileiro. Devemos lembrar que por mais bem intencionados, esforçados, bonitos e cheirosos que sejam os integrantes do Quarto Mundo, ainda assim são apenas um bando de quadrinistas independentes, e pra piorar, entre eles há um arrogante Historiador possuído pelas Musas.
É preciso que outros setores e agentes que compõem esse tal de mercado, como editoras, distribuidoras, varejistas e livreiros, também passem a fomentar a produção de quadrinhos nacionais. E não estou dizendo que eles devem fazer isso só pelo fato de ser quadrinhos nacional. Não. Esse discurso ufanista não existe no Quarto Mundo. Mas sim porque possuímos capacidade de termos um mercado de quadrinhos nacional tão grande, forte, estável e contínuo quanto o de qualquer outro país que já o tem. Felizmente alguma editoras já acordaram para a atual cena independente, e já estão trazendo os quadrinistas que estão se destacando nesse cenário para dentro de suas “fronteiras”. E se mais editoras fizerem isso, maior será a quantidade de quadrinhos que teremos nos 10%.
No que tange ao Quarto Mundo, o coletivo continuará com suas ações de incentivar a produção de quadrinhos nacional. Sabendo, é claro, que os resultados concreto dessas ações não aparecerão agora ou amanhã, mas só daqui a 20 ou 25 anos. Sei disso pois agora sou imbuído pelo espírito das Musas, e através de mim elas enunciam o presente, o passado, e o futuro. E não há porque duvidar do belo canto das Deusas Olimpíades, virgens de Zeus porta-égide.
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junho 14th, 2008 at 5:39 pm
Belo texto, Cadu! no ponto.
junho 15th, 2008 at 10:19 am
parabéns por terem furado a bolha no evento de artes, esse é um grande caminho a se seguir.
q tal um checklist próprio dos lançamentos do mês?
junho 15th, 2008 at 2:22 pm
Rodrigo, esse checklist já ocorre nas próprias revistas do Quarto Mundo, além da seção dedicada aos nossos lançamentos no Universo HQ e no programa HQ Além dos Balões.
junho 16th, 2008 at 7:34 pm
Simões. Se eu disser que o texto está soberbo e puxar o saco, vocês me convidam pro 4º Mundo? Ok. Sem onfensas a minha pequena pessoa, lembre-se: perguntar não ofende…
junho 20th, 2008 at 4:14 am
[...] o Quarto Mundo avisou neste post que “no blog é publicado todos os dias novas páginas de histórias em quadrinhos, não só [...]
junho 24th, 2008 at 12:39 pm
Muito bom o texto e um ótimo trabalho do Quarto Mundo.
A única ressalva que tenho é a seguinte: Quantidade não implica em qualidade. E muitas vezes implica no contrário,muita coisa sem valor sendo produzida e nada acrescentando.
Óbvio, qualquer tentativa de levantar a produção nacional, seja ela no mundo underground ou no mainstream, é de grande valor e responsabilidade e, por isso, os saúdo.
Mas, ao meu ver, a falta de qualidade de um material brasileiro se dá pelo fato de que os quadrinhos estão em segundo plano na carreira de muitos dos que os produzem.
Eu mesmo estou ingressando neste mercado como roteirista de quadrinhos, e creio que pouca coisa que produzi até agora (nada publicado) tenha sido de algum valor. Vejo resultado agora, em que escrevo alguns roteiros, após estudar a arte sequencial e sua singluar narrativa. Estou vendo melhores resultados em meus trabalhos, apenas depois de debruçar-me sobre eles e escrever e reescrever.
Bom, feita minha ressalva, parabenizo ao trabalho do Quarto Mundo mais uma vez e encerro meu comentário.
junho 24th, 2008 at 5:13 pm
Gabriel, acho que vc não entendeu direto a relação entre quantidade e qualidade que propõe o texto. Recomendo que o leia novamente com mais antenção, e principalmente, leia também o manifesto quartomundista onde explico sobre a Lei de Sturgeon, que é a lei que regula todo e qualquer mercado cultural, o que inclui o mercado de quadrinhos.
A Lei de Sturgeon diz que de toda produção de um mercado cultural, 90% será medíocre e apenas 10% será genial. Então a minha defesa é que quanto mais quadrinhos nacionais produzirmos, maiores serão a quantidade de quadrinhos geniais que estarão nos 10%. Mas como a proporção sempre se mantém, sempre teremos, é claro, mais quadrinhos medíocres do que geniais. É inevitável. Mas isso é algo que acontece em qualquer país, e não teria porque ser diferente com a produção brasileira.