A Tragetória do Quarto Mundo Até o Momento

Leonardo Melo, André Caliman e Cadu Simões

Difícil precisar exatamente quando tudo começou. Talvez tenha sido em novembro de 2006. Na época, Leonardo Melo e André Caliman tinham recém lançado a revista Quadrinhópole e encontraram o Cadu Simões, criador do Homem-Grilo e então editor da revista Garagem Hermética, do lado de fora do evento Fest Comix, em São Paulo. Juntos, os três reuniram os dois títulos numa pequena mesinha ao lado de um poste, em plena calçada, oferecendo ambas as revistas em promoção. Talvez tenha sido aí o começo de uma colaboração dos quadrinhos independentes. Eles venderam debaixo de sol e de chuva, sem saber que estavam iniciando um movimento.

Meses depois, em fevereiro de 2007, aconteceu o evento de entrega do 23º Troféu Ângelo Agostini. Novamente, organizaram-se para vender as revistas juntos, mas a mesa agora era maior. E qual não foi a surpresa ao verem surgir outros artistas independentes, cada um com seu título, que iam chegando e deixando ali para vender, aos cuidados de Cadu Simões, Leonardo Melo e Will. Percebia-se ali, que estava começando um verdadeiro “boom” na produção nacional, bastante focada em qualidade, tanto gráfica, quanto na produção de roteiros e desenhos de alto nível.

A Banca dos Independentes e o Nome Oficial

O próximo evento, em abril, foi o HQ e Cultura, na Uninove, também em São Paulo, e o aumento de revistas independentes foi ainda maior. Logo, veio o evento de premiação do 19º Troféu HQMIX e a “banca dos independentes”, organizada por Edu Mendes e pela comissão do prêmio, contava com dezenas de títulos dos quatro cantos do Brasil, chegando a parecer uma banca de editora, tudo devidamente organizado.

Percebia-se um forte movimento dos quadrinhos independentes, mas a coisa ainda não estava completamente organizada. E ainda existiam os “calcanharesde-aquiles” deste movimento, que sempre foram a divulgação e a distribuição, apesar do forte destaque em eventos. Foi mais ou menos nessa altura que Leonardo Melo, Cadu Simões e Pablo Casado começaram a trocar idéias por e-mail sobre como contornar estes problemas. Afinal, a produção crescia, mas nada era feito com um foco no fortalecimento do mercado. Logo, entraram na conversa Hector Lima, Leonardo Santana e outros. O que começou com uma simples troca de idéias por e-mail se transformou numa lista de discussão, que em pouco tempo contava com vinte membros. Era o começo do Quarto Mundo, que em pouco tempo já havia sido batizado.

Sistema de Trocas

Para contornar um pouco o problema de distribuição, surgiu o sistema de trocas, em que os autores independentes trocavam títulos entre si e cada um vendia em sua cidade. Ainda não era o ideal, mas era um começo. A internet sempre ajudava na divulgação, mas os autores também começaram a trocar propagandas, que eram publicadas dentro de seus respectivos títulos. Começou a se discutir veementemente formas de resolver os problemas do mercado, formas dos independentes colaborarem entre si. Em setembro, ocorreu o HQ na BA, nas Faculdade Belas Artes de São Paulo, primeiro evento onde o grupo utilizou o nome Quarto Mundo, tendo sido este “debut” registrado pelo programa Metrópolis da TV Cultura.

Aproximava-se o 5º FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos - em Belo Horizonte. Já sabíamos da existência de uma quantidade razoável de títulos independentes para tornar viável o aluguel de um estande específico para isso. O custo foi dividido entre os autores interessados em deixar seus títulos para serem vendidos lá. Aproximadamente vinte pessoas entraram na divisão do aluguel, barateando o custo para todos os envolvidos. O estande do Quarto Mundo foi dividido com os independentes de Belo Horizonte, o que deixou o espaço ainda mais atrativo para o público. Foi a grande estréia do grupo, o que chamou a atenção do mercado como um todo. Em quase todas as palestras, o esforço do Quarto Mundo era citado como exemplo a ser reconhecido de uma luta pelo quadrinho nacional. O estande se tornou um dos mais visitados durante todo o evento.

Só por aí se percebe a importância de se construir um grupo deste porte, onde os membros colaboram juntos em prol de todos. Depois do FIQ, em outubro, todos voltaram ainda mais animados e logo se tornou uma tradição ter a “Banca do Quarto Mundo” em eventos relacionados a quadrinhos. Veio a Fest Comix, onde o resultado de vendas independentes foi espantoso, e a Maratona Devir, em dezembro de 2007, que contou com a presença de vários membros do grupo, não apenas vendendo revistas, mas dando palestras, ministrando oficinas e discutindo o mercado nacional.

Fundou-se o Blog Oficial do QM, onde se falava um pouco mais dos membros que dele faziam parte, os títulos, notícias relacionadas e, claro, tratava de publicar alguns quadrinhos feitos pelos artistas-membros.

Já em 2008, tivemos o 24º Ângelo Agostini, que embora não disponibilizasse um espaço para a tradicional Banca do Quarto Mundo - em virtude da reforma no SENAC, onde sempre era realizado o evento - teve muitos membros do grupo levando o troféu para casa. Foi também nesta ocasião que o QM lançou seu primeiro Informativo.

A Força em Eventos e as Indicações ao HQMIX

Depois, ocorreu a 7ª Feira de Quadrinhos e Fanzines da USP, a 3ª Feira de Quadrinho e Arte de Osasco, a Virada Cultural na HQ Mix Livraria, a Feira de Arte da Pompéia e, mais recentemente, a participação do grupo no evento SESC em Quadrinhos, organizado por Eloyr Pacheco em Londrina. Apesar da forte chuva e do frio, este último foi um sucesso de público, o que mostrou a importância de se levar o QM a cidades onde a distribuição não alcança.

Além disso, desde o início do grupo, membros do QM tem participado ativamente de diversas atividades didáticas como aulas de HQ em escolas particulares, oficinas de fanzines em diversas Bibliotecas Municipais de São Paulo e até em palestra para uma turma do Curso de
Editoração da Escola de Comunicação de Artes da USP. Tudo isso no intuito de promover a divulgação e o entendimento do valor das HQs e fomentando a produção independente nos mais diversos locais. Boa parte das indicações ao HQ Mix deste ano têm algum nome do Quarto Mundo nelas, o que novamente ressalta a relevância do coletivo.

Sozinhas, talvez tais pessoas jamais conseguissem um destaque que lhes valesse a indicação. Mas participando do grupo, ganham uma força incomparável.

Hoje, o Quarto Mundo conta com mais de setenta artistas e tem como saldo de tudo isso um merecido destaque. Está sempre presente em eventos e ainda está brigando para encontrar formas de solucionar os duros problemas enfrentados pelo mercado. Nasceu daí um esforço coletivo na valorização e incentivo do quadrinho nacional. Que este esforço não seja em vão, e que todos - membros do QM ou não e, principalmente, os leitores - possam desfrutar dos resultados dessa luta, que continuará sendo exercida dia após dia. Em eventos, na internet ou onde mais o QM possa estar presente.

Pois ainda há muito a ser feito, e ainda estamos apenas
engatinhando…

*Este artigo de Edu Mendes e Leonardo Melo foi publicado originalmente no Informativo Quarto Mundo nº 1 de julho de 2008.

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^ 3 Comments...

  1. Ale Lima

    Olá, sou ilustrador profissional e tenho uma história em quadrinhos que gostaria de compartilhar com vocês, como faço? Aguardo contato. Atenciosamente, Ale Lima

  2. Cadu Simões

    Oi Ale! Bem, se você quer apenas compartilhar sua hq, então basta publicar ela num site ou blog e passar o link pra gente.

  3. Um Ano de Quarto Mundo | Quarto Mundo

    [...] a gerar frutos, e isso só foi possível graças à união dos quadrinhistas de todo o Brasil. Uma retrospectiva de toda essa história já foi feita em nossa edição anterior, onde falamos sobre a trajetória do Quarto Mundo até o [...]

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