Café Espacial #01
A melhor coisa no primeiro Café Espacial é que, logo de cara, na capa, o plano editorial é revelado ao leitor. Fiquei confuso com o desmembrar de arte, a especificação de que ali encontraria hq e música, como se, sei lá, não fossem artes, mas isso é pentelhação minha, preciosismo e chatice.
Das hqs presentes, por exemplo, duas se esforçam, chegam quase a ser arte. Borboleta em uma Roda alia música e pintura pra falar da dor da separação, mas um ruído de comunicação, um recordatório redundante num painel que já mostra o que ele descreve, atrapalha o efeito desejado. Sob o Peso de Nossas Asas é visualmente poética, mas o texto não acompanha a arte. Mais um daqueles casos em que se percebe a discrepância entre os níveis do time criativo. Dá pra dizer sem titubear que Laudo domina o jogo da linguagem e já deu vários passos adiante na consolidação de seu estilo.
As três curtas, curtíssimas de DW, Quando Quiser Desaparecer, Prenda a Respiração; Negrume e Ponto são chocantes. Ainda ontem tava falando disso com Léo Andrade, que se a gente quer fazer hq não adianta muito travar quando se falha em escrever/desenhar como o autor que serve de inspiração, aquele favorito que se ama e odeia ao mesmo tempo. Tem que fazer com os recursos, habilidade, sensibilidade disponíveis e tentar alcançar um resultado genuíno. É isso que DW faz em suas peças: a arte pode parecer bidimensional e abusar dos closes, mas tem tudo a ver com a natureza intimista das observações, quase sempre em primeira pessoa… um gostinho indie de autobiografia preso nos dentes depois do consumo. Mais leve e com uma boa sacada sobre o mecanismo da idealização que sublima impulsos biológicos procriativos/recreativos, Do Outro Lado da Rua, de Fábio Lyra, casa a linha clara com a visão feminina das personagens.
Contos em prosa agradáveis, corretos… único que poderia agredir o paladar politicamente correto vigente é Gol de Placa, de Lídia Basoli, e por isso mesmo é o melhor. Lídia sabe das contradições que fazem o ser humano, bom, humano, e apesar de não ter encontrado uma voz como Eder Saragiotto, autor de O Único, usa o que tem com verve. Saragiotto ousa com a linguagem, experimenta um pouco mais, e traz a notícia subjetiva de um amor homossexual platônico. Sérgio Chaves usa um truque lingüístico bacana em Velhos Amigos que me fez lembrar duma das muitas bandas esquecidas dos anos 80…
E falando em música, Cafeína Pura é a seção da dita cuja, com entrevistas de duas bandas e resenhas de demos e cds. Me abstenho de comentar A) por desconhecer a produção das bandas; B) por conta da surdez parcial que me acometeu em 98.
Tem ainda uma entrevista essencial com Flávio Colin, que foi um verdadeiro desbravador da HQB e acreditou no sonho. Chaves apertou os botões certos nessa aqui e trouxe um Colin burilado e tarimbado pro leitor.
Ainda: Mais uma Dose, de Talita Prado e Diabo a Quatro, de Lídia Basoli e Rafael Rodrigues. O texto de Rodrigues sobre Niemeyer é poético na melhor acepção do termo. Lídia mata a pau com o seu sobre Leminski, um dos meus poetas favoritos e confirma a impressão causada por seu conto de que ela entende mesmo a contraditoriedade da natureza humana.
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