Revistas de HQ ou mix cultural?

Artigo de Pedro de Luna para o JBlog Quadrinhos

Uma coisa que eu já venho observando faz algum tempo é que as revistas de quadrinhos estão virando cada vez mais uma publicação mix, com espaço para contos, poesias, entrevistas, cinema e outros bichos. A caixa postal do JBlog recebeu por correio três delas, de diferentes partes do país, mas com este traço em comum. Com o perdão do trocadilho.

GARAGEM HERMÉTICA # 05

Da capital paulista vem a quinta edição da revista editada por Edu Mendes, Cadu Simões, Roberta Bronzatto, Fabio Santos e Kleber de Sousa, que coletivamente atende pelo nome de Sócios Ltda. “Nos conhecemos em um curso na Gibiteca Henfil em 2005 e temos publicado juntos desde então”, explica Edu.

E como é editar coletivamente uma revista?
“Em geral funciona assim: cada um dos artistas do grupo prepara sua HQ e nos reunimos pra ver quantas páginas temos e quantas faltam pra fechar a revista. A partir daí vemos o que nos foi enviado de colaboradores e se estes trabalhos se encaixam na edição daquele número. Então vamos montando o quebra-cabeça que é o boneco da Garagem até chegarmos em algo entre 32 e 36 páginas. Às vezes, pedimos algo em especial pra algum autor de quem gostamos, como foram os casos do Cobiaco e do Sam Hart, mas em geral selecionamos a partir do que recebemos por email ou por conhecidos. Queremos material bem autoral para a revista, então nunca pedimos alteração para os artistas em suas HQs. Ou aceitamos ou recusamos”.

Como flui essa divisão do espaço entre quadrinhos e textos?
Edu responde:“Apesar de reservarmos um espaço maior para as HQs, nossa intenção sempre foi de publicar textos, pois pelos comentários que tivemos, o público gosta desse mix de HQ e textos. Já chegamos inclusive a publicar narrativas que misturavam texto e quadrinhos. Temos, desde o número 1, um articulista cativo que faz muito sucesso que é o Nobu Chinen, do Observatório de Quadrinhos da USP. Seus textos são sempre elogiados e sei inclusive de algumas pessoas que sempre começam a leitura da revista pelos artigos do Nobu. Além dele, eu e Roberta já publicamos textos nossos, e recentemente encontramos um colaborador (Vince Vader) que nos mandou diversos textos interessantes e que temos publicado desde o número 4”.
Hq de MAnhã

Mas falando sobre HQs, nesta edição destaco “De Manhã” (acima), de Dark Marcos (roteiro), Laudo (desenho) e Omar (arte-final), que remete às HQs de Will Eisner, onde consegue ver poesia no cruel cotidiano urbano do trabalhador. Luzes também sobre “Um Garçom dançarino e suas tragédias” (abaixo), de Daniel Esteves (roteiro) e Wagner de Souza (arte), que explica como uma coisa pode levar a outra. No caso um ex-garçom que vira stripper e as conseqüências disso. A matéria de Nobu sobre a revista Raw, de Art Spiegelman, também compensa o investimento de R$ 5.
garçom web

CAFÉ ESPACIAL # 05

Quem também chega ao quinto número é a revista bacana editada em Vera Cruz, interior de SP. Nesta edição, chama a atenção as HQs “Inferno de boas intenções”, de Sergio Chaves (roteiro) e Allan Ledo (arte), sobre o dilema de um cara em trair ou não a namorada numa balada. E também “Joaquina Pede Água”, do mesmo Sergio com arte de Sueli Mendes, sobre os últimos momentos de vida de uma idosa. Vale a pena também ler a entrevista com a banda Venus Volt e, claro, conhecer o som deles.

Curiosamente, as duas histórias que mais gostei são do próprio editor, Sergio Chaves. Uma fala de traição, outra de morte. São seus temas favoritos?
“De certo modo, sim, pois gosto muito de temas urbanos, dramas. Tanto nos quadrinhos ou fora deles. Particularmente gosto de gêneros diversos, mas para a Café Espacial priorizo essa linha de histórias”, explica.

A Café é uma revista de HQ, mas também de cinema, literatura, etc. O público tem gostado ou tem gente que só lê uma ou outra coisa?
“Há um público que prefere exclusivamente uma arte a outra, mas trata-se de um público menor, mesmo. Em geral, temos conseguido ampliar o nosso público a cada nova edição – ora trazendo (para os quadrinhos) leitores não tão familiarizados com os HQs ora criando leitores entre os amantes de fotografia ou de música”.
Adquira a sua pelo blog deles.

HQ PARA DIVULGAR BANDA DE ROCK

O músico Evandro Vieira já esteve antes aqui no JBlog, quando do lançamento do livro ”Grosseria Refinada”, agora o vocalista da banda Quebraqueixo, de Brasília, surge com uma revista em quadrinhos que, curiosamente, saiu antes do disco. Mas por que?

“Na verdade, o projeto todo é para o primeiro trimestre de 2010. Publicaremos um livro grande e luxuoso, colorido e de capa dura. O CD irá encartado e todas as músicas ganharam adaptação para os quadrinhos. Com o início do ano letivo, faremos 14 shows, seguidos de oficinas de quadrinhos em escolas públicas do Distrito Federal, tudo com o apoio da Secretaria de Cultura do DF. Como já tínhamos um bom material pronto, resolvemos bancar do próprio bolso esse gibi para divulgarmos no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) em BH, onde tivemos uma ótima recepção”.

Cada autor recebeu apenas uma música para ouvir, a que ele mesmo teria que desenhar? “Como o disco ainda não estava pronto, os desenhistas receberam apenas as letras. Fiz a seleção dos artistas mais ou menos de acordo com o traço que a música sugeria. Desenhar sem ouvir a música foi um desafio que eles tiveram que encarar e acreditamos que todos se saíram bem”.
hq quebraqueixo musica mordida

Em que você se inspirou para este projeto?
“Com tanta oferta de música grátis, vender CD é difícil até para bandas grandes. Quando o Quebraqueixo começou a pré-produção do CD, pensamos em estratégias para divulgar nosso trabalho de maneira diferenciada. Queríamos algo que tivesse apelo visual e que chamasse a atenção, os quadrinhos foram a saída perfeita”, explica o vocalista e quadrinista. “Misturar música e HQ, não é algo exatamente inédito, mas pouco explorado. No Brasil, posso citar como exemplos bem-sucedidos as parcerias entre Luis Gê e Arrigo Barnabé; Marcatti e Ratos de Porão; Angeli e Raimundos; Zimbres e Mechanics. Acredito que esse tipo de experiência vai virar tendência nos próximos anos”. Deus te ouça, meu amigo.

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