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A Tragetória do Quarto Mundo Até o Momento

sábado, setembro 27th, 2008

Leonardo Melo, André Caliman e Cadu Simões

Difícil precisar exatamente quando tudo começou. Talvez tenha sido em novembro de 2006. Na época, Leonardo Melo e André Caliman tinham recém lançado a revista Quadrinhópole e encontraram o Cadu Simões, criador do Homem-Grilo e então editor da revista Garagem Hermética, do lado de fora do evento Fest Comix, em São Paulo. Juntos, os três reuniram os dois títulos numa pequena mesinha ao lado de um poste, em plena calçada, oferecendo ambas as revistas em promoção. Talvez tenha sido aí o começo de uma colaboração dos quadrinhos independentes. Eles venderam debaixo de sol e de chuva, sem saber que estavam iniciando um movimento.

Meses depois, em fevereiro de 2007, aconteceu o evento de entrega do 23º Troféu Ângelo Agostini. Novamente, organizaram-se para vender as revistas juntos, mas a mesa agora era maior. E qual não foi a surpresa ao verem surgir outros artistas independentes, cada um com seu título, que iam chegando e deixando ali para vender, aos cuidados de Cadu Simões, Leonardo Melo e Will. Percebia-se ali, que estava começando um verdadeiro “boom” na produção nacional, bastante focada em qualidade, tanto gráfica, quanto na produção de roteiros e desenhos de alto nível.

A Banca dos Independentes e o Nome Oficial

O próximo evento, em abril, foi o HQ e Cultura, na Uninove, também em São Paulo, e o aumento de revistas independentes foi ainda maior. Logo, veio o evento de premiação do 19º Troféu HQMIX e a “banca dos independentes”, organizada por Edu Mendes e pela comissão do prêmio, contava com dezenas de títulos dos quatro cantos do Brasil, chegando a parecer uma banca de editora, tudo devidamente organizado.

Percebia-se um forte movimento dos quadrinhos independentes, mas a coisa ainda não estava completamente organizada. E ainda existiam os “calcanharesde-aquiles” deste movimento, que sempre foram a e a , apesar do forte destaque em . Foi mais ou menos nessa altura que Leonardo Melo, Cadu Simões e Pablo Casado começaram a trocar idéias por e-mail sobre como contornar estes problemas. Afinal, a produção crescia, mas nada era feito com um foco no fortalecimento do mercado. Logo, entraram na conversa Hector Lima, Leonardo Santana e outros. O que começou com uma simples troca de idéias por e-mail se transformou numa lista de discussão, que em pouco tempo contava com vinte membros. Era o começo do Quarto Mundo, que em pouco tempo já havia sido batizado.

Sistema de Trocas

Para contornar um pouco o problema de , surgiu o sistema de trocas, em que os autores independentes trocavam títulos entre si e cada um vendia em sua cidade. Ainda não era o ideal, mas era um começo. A internet sempre ajudava na , mas os autores também começaram a trocar propagandas, que eram publicadas dentro de seus respectivos títulos. Começou a se discutir veementemente formas de resolver os problemas do mercado, formas dos independentes colaborarem entre si. Em setembro, ocorreu o HQ na BA, nas Faculdade Belas Artes de São Paulo, primeiro evento onde o grupo utilizou o nome Quarto Mundo, tendo sido este “debut” registrado pelo programa Metrópolis da TV Cultura.

Aproximava-se o 5º FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos - em Belo Horizonte. Já sabíamos da existência de uma quantidade razoável de títulos independentes para tornar viável o aluguel de um estande específico para isso. O custo foi dividido entre os autores interessados em deixar seus títulos para serem vendidos lá. Aproximadamente vinte pessoas entraram na divisão do aluguel, barateando o custo para todos os envolvidos. O estande do Quarto Mundo foi dividido com os independentes de Belo Horizonte, o que deixou o espaço ainda mais atrativo para o público. Foi a grande estréia do grupo, o que chamou a atenção do mercado como um todo. Em quase todas as palestras, o esforço do Quarto Mundo era citado como exemplo a ser reconhecido de uma luta pelo quadrinho nacional. O estande se tornou um dos mais visitados durante todo o evento.

Só por aí se percebe a importância de se construir um grupo deste porte, onde os membros colaboram juntos em prol de todos. Depois do FIQ, em outubro, todos voltaram ainda mais animados e logo se tornou uma tradição ter a “Banca do Quarto Mundo” em relacionados a quadrinhos. Veio a Fest Comix, onde o resultado de vendas independentes foi espantoso, e a Maratona Devir, em dezembro de 2007, que contou com a presença de vários membros do grupo, não apenas vendendo revistas, mas dando palestras, ministrando oficinas e discutindo o mercado nacional.

Fundou-se o Blog Oficial do QM, onde se falava um pouco mais dos membros que dele faziam parte, os títulos, notícias relacionadas e, claro, tratava de publicar alguns quadrinhos feitos pelos artistas-membros.

Já em 2008, tivemos o 24º Ângelo Agostini, que embora não disponibilizasse um espaço para a tradicional Banca do Quarto Mundo - em virtude da reforma no SENAC, onde sempre era realizado o evento - teve muitos membros do grupo levando o troféu para casa. Foi também nesta ocasião que o QM lançou seu primeiro Informativo.

A Força em e as Indicações ao HQMIX

Depois, ocorreu a 7ª Feira de Quadrinhos e da USP, a 3ª Feira de Quadrinho e Arte de Osasco, a Virada Cultural na HQ Mix Livraria, a Feira de Arte da Pompéia e, mais recentemente, a participação do grupo no evento SESC em Quadrinhos, organizado por Eloyr Pacheco em Londrina. Apesar da forte chuva e do frio, este último foi um sucesso de público, o que mostrou a importância de se levar o QM a cidades onde a não alcança.

Além disso, desde o início do grupo, membros do QM tem participado ativamente de diversas atividades didáticas como aulas de HQ em escolas particulares, oficinas de em diversas Bibliotecas Municipais de São Paulo e até em palestra para uma turma do Curso de
Editoração da Escola de Comunicação de Artes da USP. Tudo isso no intuito de promover a e o entendimento do valor das HQs e fomentando a nos mais diversos locais. Boa parte das indicações ao HQ Mix deste ano têm algum nome do Quarto Mundo nelas, o que novamente ressalta a relevância do coletivo.

Sozinhas, talvez tais pessoas jamais conseguissem um destaque que lhes valesse a indicação. Mas participando do grupo, ganham uma força incomparável.

Hoje, o Quarto Mundo conta com mais de setenta artistas e tem como saldo de tudo isso um merecido destaque. Está sempre presente em e ainda está brigando para encontrar formas de solucionar os duros problemas enfrentados pelo mercado. Nasceu daí um esforço coletivo na valorização e incentivo do quadrinho nacional. Que este esforço não seja em vão, e que todos - membros do QM ou não e, principalmente, os leitores - possam desfrutar dos resultados dessa luta, que continuará sendo exercida dia após dia. Em , na internet ou onde mais o QM possa estar presente.

Pois ainda há muito a ser feito, e ainda estamos apenas engatinhando…

*Este artigo de Edu Mendes e Leonardo Melo foi publicado originalmente no Informativo Quarto Mundo nº 1 de julho de 2008.

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Um Ano de Quarto Mundo

quarta-feira, novembro 12th, 2008

Outubro de 2007, o Quarto Mundo faz sua estréia em grande estilo no 5º FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte - MG. Outubro de 2008, hoje. O Quarto Mundo comemora seu primeiro ano de existência. Um ano marcado por vários acontecimentos, sempre batalhando para que os autores nacionais conquistem seu espaço no mercado. O que se passou nesse primeiro ano de vida do coletivo? Será que há algo para se comemorar?

Sim, há muito o que se comemorar. Nossa luta finalmente começou a gerar frutos, e isso só foi possível graças à união dos quadrinhistas de todo o Brasil. Uma retrospectiva de toda essa história já foi feita em nossa edição anterior, onde falamos sobre a trajetória do Quarto Mundo até o HQMIX 2008. Não faz nem três meses que isto aconteceu, mas já temos muitas outras novidades a acrescentar naquela história que vocês leram.

A primeira diz respeito ao próprio HQMIX, premiação em que integrantes do grupo conquistaram oito troféus (desenhista revelação, roteirista revelação, publicação independente de autor, publicação independente de grupo, publicação independente especial, publicação independente de bolso, site de autor, tese de graduação) e onde o grupo foi laureado com um prêmio pelas atividades que vem desenvolvendo. Praticamente não houve um evento de quadrinhos, sobretudo em São Paulo, desde julho de 2007, em que o Quarto Mundo não esteve presente, seja vendendo quadrinhos, seja divulgando o trabalho de todo mundo, ou mesmo dando palestras, entrevistas, oficinas e afins. Vocês viram. Vocês estavam lá. E basicamente foi isso que nos rendeu o Prêmio HQMIX de Contribuição do Ano ao Quadrinho Nacional.

O Prêmio veio em boa hora, pois renovou o ânimo e o nosso compromisso de continuar lutando. Foi um reconhecimento pelo nosso esforço, um presente de um ano de existência e a certeza de que não devemos parar. Jamais! No entanto, o que o Quarto Mundo fez neste primeiro ano de vida ainda é muito pouco perto do seu potencial.

Organização do Grupo

Tendo em vista a necessidade de uma atuação mais forte em várias áreas do mercado, o coletivo começou a se organizar e dividir tarefas entre seus membros. A grande maioria ainda é formada por apoiadores ou entusiastas do movimento, mas alguns já estão fazendo parte dos “Núcleos de Atuação” e trabalhando neles. Cada qual tem uma linha de trabalho específica, com suas metas individuais, embora todos trabalhem juntos com o mesmo objetivo. A seguir falaremos um pouco mais sobre cada uma dessas linhas de trabalho.

Conselho Administrativo: São, na maioria, os coordenadores dos outros núcleos, além de cuidarem dos trâmites administrativos e orientarem os membros de cada núcleo na execução de suas tarefas. O grupo atua em questões que envolvem todas as atividades e membros do coletivo.

Núcleo : Agora o Quarto Mundo tem o seu próprio esquema de , fugindo do cartel formado pelas poucas distribuidoras que existem. A idéia é que cada cidade tenha o seu membro-distribuidor. Ele receberá material do grupo e deixará em consignação diretamente nas bancas e comic shops de sua cidade. Na ilustração estão representados os estados onde existem distribuidores, até o momento de fechamento desta edição.

Núcleo : O grupo cria novas estratégias para divulgar os quadrinhos nacionais. Algumas propostas deste núcleo incluem levar o grupo a canais de TV, rádio e mídia impressa, além de ser responsável por criar e divulgar os releases sobre os lançamentos de cada um dos membros.

Núcleo : Este Núcleo já tem um planejamento a respeito de como o Quarto Mundo irá atuar em vários programados para acontecer até o FIQ 2009. Isso inclui a organização da banca do Quarto Mundo e várias outras atividades correlatas.

Núcleo Internet: Com planos de tradução do blog do Quarto Mundo para outras línguas, o que irá divulgar o quadrinho nacional para fora do Brasil e logo deverá ter visitas suficientes para que ele mantenha-se sozinho, sem a necessidade dos membros dividirem seu domínio e hospedagem. O blog é a principal ferramenta de do Quarto Mundo na internet, valendo-se do que a própria internet disponibiliza para tanto. É a tática de guerrilha no mundo virtual.

Núcleo Informativo: A publicação-símbolo do coletivo segue em veicular novidades, checklists e trabalhos dos artistas do grupo. A intenção é ter um número novo a cada evento representativo de quadrinhos que aconteça em qualquer ponto do país e que seja acessível para o Quarto Mundo.

As engrenagens começam a rodar, a máquina quartomundista entra em funcionamento. Esse foi o fruto principal deste primeiro ano, e esperamos que as engrenagens não parem mais de rodar daqui em diante, procurando trazer conquistas aos quadrinhistas brasileiros a cada ano que passar.

É este o papel do Quarto Mundo, é a missão com a qual nos comprometemos. Por isso, longa vida ao Quarto Mundo e a todos os autores independentes!

Dez motivos que mostram como o sistema de do Quarto Mundo é interessante para os pontos de venda e autores independentes:

  1. Revistas que nunca conseguiriam ser aceitas por uma distribuidora pela baixa tiragem chegarão com velocidade aos clientes nas lojas.
  2. Integrantes do grupo coordenarão a chegada e saída de títulos de forma centralizada, liberando o vendedor do trabalho de fazer os acertos individuais com cada editor.
  3. O Quarto Mundo, na intenção de valorizar autores e vendedores, garante 50% do valor de capa para os autores e 30% para os pontos de venda e reserva apenas 20% para cobrir os custos de , porcentagem esta que pode até mesmo ser diminuída ou anulada, dependendo do critério adotado pelo distribuidor.
  4. Através de displays colocados junto às suas publicações, o grupo sinalizará e endossará os títulos participantes do coletivo.
  5. Através do envio conjunto de publicações os autores terão gastos menores com envio de seus títulos para outros estados que antes se faziam em pequenos pacotes para cada ponto de venda.
  6. O representante do grupo em cada região gerenciará a logística da enviando um número específico de revistas para cada ponto em função de seus relatórios de venda.
  7. Os pontos de venda passarão a fazer parte da rede Quarto Mundo e serão promovidos no Informativo e no blog do grupo.
  8. O autor acompanha as vendas de suas revistas em planilhas de controle disponibilizadas a todos os membros. Assim ele sabe quanto vendeu em cada comic shop ou evento.
  9. O acerto é feito bimestralmente, assim o autor não precisa se preocupar em fazer conferências ou ficar cobrando donos de loja ou distribuidoras.
  10. Todos divulgam o trabalho de todos, fortalecendo assim a propaganda pelo quadrinho nacional.
*Este artigo de Edu Mendes e Leonardo Melo foi publicado originalmente no Informativo Quarto Mundo nº 2 de outubro de 2008.

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Ainda é só o Começo

terça-feira, dezembro 9th, 2008

Se você acompanha o blog do Quarto Mundo desde o seu início, já deve estar careca de saber quais são os objetivos do nosso coletivo, e qual é a importância dele para a consolidação de um verdadeiro brasileiros. Mas como parece haver gente, mesmo entre os quadrinistas, que ainda não entendeu a idéia por trás do Quarto Mundo, não custa nada reforçá-la mais uma vez. Assim também aproveito pra dar uma recapitulada desse ano de 2008 para o nosso coletivo, e concluindo com as propostas do QM para os próximos anos.

Costumo dizer entre meus colegas de coletivo que saberemos com certeza que possuímos de fato um brasileiros quando o próprio Quarto Mundo se tornar inútil, não mais necessário, e então deixar de existir. Pois as tarefas que o QM se propõe a fazer, como distribuir revistas, divulgá-las, encontrar novos pontos de venda, criar novos leitores, etc, na verdade não deveria ser feita por quadrinistas. Quadrinistas, em teoria, deveriam se preocupar apenas em produzir quadrinhos, e toda essa parte “chata” de editoração, e logística dos quadrinhos deveriam ser feitos por outros profissionais do ramo.

Mas por uma série de razões não é isso que acontece, infelizmente. As editoras não querem investir em propaganda ou pesquisa de mercado (mesmo as grandes que tem dinheiro para isso), e as distribuidoras não querem distribuir material para públicos segmentados e variados que vão além do tradicional público de quadrinhos. Agindo desta forma, tanto editoras como as distribuidoras apostam apenas em gêneros de quadrinhos já carimbados e para um público leitor que já é comprador de quadrinhos, de forma a conseguir lucro rápido e sem precisar gastar muito dinheiro. Esse tipo de atitude inviabiliza completamente o surgimento de um mercado forte de quadrinhos brasileiros, pois sem investimentos, não há como os quadrinhos nacionais venderem bem e se firmarem, como acontece com o material que vem de fora, que ao contrário do nosso, já de antemão possui um alto investimento feito pelas editoras de seus países de origem.

Vale lembrar que, por melhor que seja seu quadrinho, ele não vai vender por si próprio se ninguém o conhece. E a única forma de fazer as pessoas conhecê-lo é através da publicidade, na suas mais diversas formas, seja o simples boca-a-boca ou a propaganda na mídias. É por isso que se uma editora publica um gibi do Super-Homem, essa editora não precisa necessariamente investir em publicidade pra poder vendê-lo, pois além do fato do personagem já ser um ícone cultural e amplamente conhecido, a propaganda da revista já foi feita pela DC-Warner e replicada nas mídias nacionais (aliás, tem um monte de site que apenas se limita a fazer copy and paste do que sai nos sites gringos).

Mas se essa mesma editora ousasse publicar um quadrinho nacional de um personagem desconhecido e para um público que não é o de super-heróis, muito provavelmente ela iria simplesmente jogar esse quadrinho nas bancas ou nas livrarias como faz com o Super-Homem, e apenas ficaria esperando que ele venda bem sem qualquer investimento em propaganda, o que é uma puta idiotice. Até mesmo um cara que acabou de entrar na faculdade de publicidade sabe que esse quadrinho não vai vender porra nenhuma, ainda mais no primeiro número, mesmo que seja cem vezes melhor que o Super-Homem.

E nós do Quarto Mundo também sabemos que um quadrinho não se vende por si só. Que ele não se distribui sozinho. Que ele não alcança os seus leitores por pura mágica, por melhor que seja a qualidade da obra. E se ninguém mais se propõe a exercer devidamente essas funções editoriais-administrativas-logística dos quadrinhos, então nós quadrinistas do Quarto Mundo resolvemos arregaçar as mangas e começamos a executar essas tarefas nós mesmos. Afinal, nada mais coerente, já que somos os principais interessados na criação de uma infraestrutura básica que permita a existência de um brasileiros.

Bem, neste momento alguns de vocês já devem estar reclamando “Mas porra, esse cara só sabe falar de mercado? Que tal falar da produção, da arte, do trabalho em si.” Ora, eu falo de mercado porque como eu expliquei até agora, infelizmente o atual cenário não permite que a maioria dos quadrinistas nacionais possam se preocupar apenas em produzir o seu trabalho, e que se foda o resto, do contrário, como ele vai conseguir viver do seus quadrinhos se não há mais ninguém pensando o mercado e fazendo ele acontecer?

Falar de quadrinhos é falar inevitavelmente de mercado, pois essa é uma arte inserida dentro de um ecossistema econômico e dentro de uma lógica comercial, por mais underground que seja seu trabalho. Pois como eu já expliquei em outro texto, até mesmo os quadrinhos underground formam um mercado próprio e que possui uma sinergia e um ciclo de desenvolvimento em conjunto com o mercado mainstream. E isso acontece não só com os quadrinhos, mas também com todas as artes que funcionam dentro da lógica do mercado cultural, como o cinema, a música, etc.

Por isso, o mercado só está indissociável do seu trabalho em si se: 1) você produz quadrinhos apenas por diversão para mostrar pros seus amigos e familiares, e não tem intenção de levar isso como profissão ou 2) você produz quadrinhos isolado numa ilha deserta pra você mesmo ler.

Se você não se enquadra em nenhum desses dois casos, discutir mercado é sim importante, essencial e inevitável, ainda mais se levarmos em consideração o atual cenário de quadrinhos onde a maioria dos quadrinistas não podem se dar ao luxo de apenas se preocupar em produzir seu trabalho, pois sabe que não existe outras pessoas preocupadas com todo o resto. Infelizmente, isso não existe ainda, e por isso o Quarto Mundo se faz necessário.

Então se você é como a maioria dos quadrinistas, que ainda não consegue viver apenas de fazer quadrinhos, infelizmente você não pode se dar ao luxo de dizer que o trabalho é apenas o que importa e que se foda o resto. Pois se você é como a maioria dos quadrinistas, que tem que trabalhar o dia inteiro em outras coisas pra poder pagar as contas, e só pode fazer os seus quadrinhos no horário em que você deveria estar dormindo, apenas se preocupar com a produção não irá mudar as suas condições fudidas de trabalho. Essas condições só irão mudar se você começar a se preocupar com todos os aspectos que envolvem a produção de quadrinhos, que envolve sim o trabalho e a produção em si, mas também o mercado e tudo mais. Só com essa preocupação com o todo é que os quadrinistas podem se organizar pra criar um que lhe de condições dignas de trabalho. Aí sim eles poderão apenas se preocuparem com suas produções de quadrinhos e não mais com o resto.

Mas então aí você também pode dizer “De que adianta as pessoas se organizarem pra distribuir melhor as revistas pelo Brasil inteiro se ninguém produzir mais revistas?” Ora, e quem disse que não tem gente produzindo? Nunca se produziu tanto quadrinhos nesse país, e 90% dessa produção é feita de forma independente. O próprio fato de haver uma organização como o Quarto Mundo é um grande incentivo aos quadrinistas produzirem, pois agora eles sabem que seus quadrinhos serão publicados, distribuídos e chegarão aos seus respectivos leitores, e não mais ficarão guardados pegando mofo dentro de uma gaveta. E esse fomento da produção pelo Quarto Mundo acontece não só na nova geração de quadrinistas, mas também nos veteranos. São vários os exemplos de quadrinistas veteranos, que desanimados com as infrutíferas tentativas anteriores de se forma um mercado, pararam de fazer quadrinhos e migraram pra outras áreas (principalmente os roteiristas), mas diante desse novo cenário favorável que a tem oferecido, voltaram a produzir. E cada dia que passa, mais e mais títulos de quadrinhos independentes vão surgindo, e isso tanto impresso, quanto online na Internet (o próprio Quarto Mundo publica uma página de quadrinhos por dia aqui no blog).

Neste ano de 2008 o Quarto Mundo publicou uma média de cinco títulos de quadrinhos por mês. É pouco? Sim, é. Mas isso já é mais quadrinhos brasileiros, e nos mais diversos gêneros e estilos, do que qualquer editora tenha publicado neste ano, ou nos anteriores. E a tendência é que essa média cresça exponencialmente para os próximos anos. E quanto mais quadrinhos são publicados, melhor vai se tornando a qualidade deles. Se olharmos para as últimas edições das atuais publicações independentes e compararmos com as primeiras edições delas, veremos claramente uma evolução de qualidade. Isso é óbvio, afinal, a cada novo número lançado, os quadrinistas vão aprendendo, concertando os erros, evoluindo, melhorando até atingirem um nível ímpar. Já podemos inclusive apontar algumas publicações que possuem esse alto nível de qualidade como é o caso da Café Espacial, da Graffiti, da Jukebox, da Zine Royale, da Nanquim Descartável. E as outras que ainda não possuem esse nível também vão chegar lá se continuarem publicando e evoluindo.

Se você ainda não conferiu nenhuma dessas publicações, então você pode comprovar a qualidade dos quadrinistas que participam delas por algumas das histórias que publicamos aqui mesmo no blog. É o caso de Desvio, Dia do Pinhão, Always Look on…, Poço, NeoQuadrilha, (Re)lapso, Tentáculos, 10 Centavos, Pipas, Fragmentos, entre outras. Se “o importante é ter o que dizer, é ter opinião, é ter um discurso no seu trabalho”, todos os autores das histórias anteriormente citadas possuem tudo isso e vocês podem conferir por vocês mesmos, basta clicar nos links e ler.

E todos esses autores poderiam muito bem cada um ficar no seu canto, apenas se preocupando com sua própria produção e dizer “foda-se o resto”. Mas não, ao invés disso eles resolveram se juntar, colaborarem entre si, e pensarem além de seus próprios trabalhos. Resolveram pensar na construção de um mercado que abarque a todos os quadrinistas que possuem qualidade pra fazer parte dele. E não apenas pensaram, mas colocaram as mãos na massa e começaram a construir eles mesmo esse mercado, já que ninguém mais se importou em fazer isso. Um mercado que permita que roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, coloristas, letristas, enfim, todos os quadrinistas que fazem parte da produção de uma história em quadrinhos tenham condições dignas de trabalho e que possam ganhar no mínimo o suficiente para pagar suas contas.

E esse mercado vai acontecer. Vai demorar, mas vai acontecer. O plano mestre do Quarto Mundo para a construção desse mercado é de no mínimo vinte anos. Serão vinte anos publicando quadrinhos, distribuindo esses quadrinhos, procurando novos pontos de venda, formando novos leitores, incentivando os novos quadrinistas, e consolidando a produção dos veteranos. O Quarto Mundo fez apenas um ano de idade. Estamos apenas no começo. Ainda há dezenove anos pela frente para que o Quarto Mundo cumpra a sua missão e então deixe de existir.

É claro que apenas a ação do Quarto Mundo não será suficiente para a criação desse mercado. Seria no mínimo ingênuo pensar isso. Mas esperamos que as nossas ações inspirem os outros agentes do ramo de quadrinhos a também fazerem a sua parte, pois todos só tem a ganhar com isso, tanto os quadrinistas, quanto as editoras, quanto os livreiros-jornaleiros, quanto os leitores. E ao fim deste ano, percebemos que isso já está acontecendo, ainda que timidamente.

E se você aguentou ler até aqui, gostaria de saber a sua opinião sobre todo esse assunto que discuti, e principalmente sobre o Quarto Mundo. O que você espera do nosso coletivo para o ano que vem? Quais são os nossos defeitos, onde nós erramos? O que podemos fazer pra consertar? O que está faltando para nós fazermos? Que tipo de você sente falta e que poderiam ser publicadas pela gente? Que valor você acha justo ser pago pelas revistas? E pelos álbuns?

Enfim, a área de comentários abaixo está democraticamente aberta para vocês emitirem suas opiniões e darem seus recados. Para nós esse tipo de feedback é muito importante e necessário para que possamos aprender, e que assim a cada ano o Quarto Mundo continue crescendo e evoluindo.

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