Muertos
terça-feira, outubro 14th, 2008
Sábado e seus rituais. O endereço de correspondência ainda é o mesmo.
Lá estavam as duas cópias de Muertos, hq de Daniel Pereira dos Santos baseada num conto de Zanthos Aybrom (que nome cabuloso! Queria ter inventado um assim pra mim!).
Eu já tinha lido boa parte de Muertos online, no site do Daniel, que tem ainda mais meia dúzia de boas histórias, um documento de sua evolução como artista de hqs. A tal diligência no trabalho de que falei noutro dia.
Quando soube que ele faria uma edição impressa, deixei de acompanhar o material na rede e esperei pelo lançamento. Sim, a hq é boa desse jeito. Tá, eu sei que o conteúdo não muda, mas a leitura de uma hq analógica traz uma experiência tátil que a digital ainda não permite (quem sabe um dia). Cheirar o papel, tatear etc., etc…
Muertos é anticonvencional. Não é à toa que a trama se desenrola na fronteira. Alguém até pode lembrar do filme de Beto Brant (Matadores), mas a história é muito mais que isso. Pra começar, pense no que é uma fronteira.
É um limite geográfico, a linha que separa o conhecido do desconhecido? Ou não? A fronteira é a narrativa de um conto em prosa transformado em hq? É uma fronteira de linguagens? É, como sugerido na primeira pergunta da série, a fronteira atravessada pelo neófito em sua jornada iniciática? Ou a fronteira do espaço-tempo, da memória, da ficção e da autobiografia?
Você tem um narrador em primeira pessoa, mas não é uma história policial, não é uma trama detetivesca e, apesar da camada ‘hardboilled’, das armas, palavrões, loiras (não fatais) e outras convenções do gênero, trata mesmo é da humanidade, das falhas, dos sonhos, do apego aos pequenos momentos e às pequenas coisas que assimilamos, deixamos relegadas à memória, à qual recorremos nos momentos difíceis.
A arte é um capítulo à parte, claro.
Desenhos e storytelling servem perfeitamente à narrativa., chiaroscuro da melhor qualidade, climão perfeito. O conto é de Aybrom, mas roteiro e desenho são de Daniel. É trabalho de equipe, é trabalho de um homem só? Mais uma fronteira, n’est ce pás?
Em Muertos a ilusão de tempo cronológico se esgarça e rasga, revelando o agora, a única coisa que existe, o ‘momento’ do zen.
































